sexta-feira, 8 de março de 2013

Madalena Village (conto)

     Noite quente de São Paulo envolta na solidão tipica dos fins de semana em que a companhia se resume aos próprios pensamentos. Sábado sedento de chope e conversa. Dentro do carro estacionado em frente ao obelisco do Ibirapuera a luz da lua ajuda a procurar o que fazer. Os filmes assistíveis já haviam se esgotado, para teatro já era tarde, beber sozinho me fazia mal ao fígado, música... música.. algum show!
    -É isto! Sessão maldita no Lira Paulista! Começa à meia-noite, dá tempo!
    Passando pouco das onze, subia devagar pela direita na direção de Pinheiros, cruzei a 9 de Julho, a Rebouças e entrei na Henrique Schauman. O brilho dos inúmeros neons dava vida e cor aos inúmeros bares, danceterias e choperias. Naqueles dias dos anos 70 já pulsava por todos os lados o som alegre da noite paulistana, misto de rock, samba, motos e carros. Foi incrivelmente fácil encontrar uma vaga perto do pequeno teatro, o que pareceu prenúncio de boa sorte.
Onze e meia e fervia o local pela marginália noturna, figuras típicas do subterrâneo cultural da Vila Madalena. Hippies patéticos ainda discutindo o poder alucinógeno, latinos em portunhol fluente dando vivas à futura revolução, blacks pensando funk, gente bonita à procura.
Ao comprar o ingresso fiquei sabendo da dupla que se apresentava, Lé Dantas e Cordeiro. Faziam um som urbano com raízes interioranas, vindos do Paraná se não me trai a memória.  Já havia ouvido algo na TV Cultura, falavam bem. Meia hora demora muito a passar quando se está sozinho..pensei em uma cerveja para me fazer companhia mas desisti ao lembrar da fama do banheiro do Lira.
- Garçom! Uma vodka com martini doce e duas pedras de gelo.
Encarei firme o crioulo magro que estranhou o pedido. Eu também. Me pareceu sonora a combinação. Meu estomago reclamou no primeiro gole. Fui até o fim, aguardando os ponteiros se encontrarem e permitirem minha entrado no teatro.
O Lira Paulistana abriu suas portas no horário, engolindo a  fauna ávida em seus bancos duros dispostos em semicírculo, formando uma arena. Sentei na segunda fila e esperei. 
As luzes ainda estavam acesas quando aconteceu. Uma fada de olhos verdes enormes me encarava do outro lado da platéia.
Naturalmente procurei ao meu lado alguém que pudesse ser o alvo dos raios emitidos por aqueles olhos, mas os casais vizinhos estavam entretidos nos arrulhos pré-motelescos. Quando voltei a cabeça em direção fatídica, um sorriso displicente confirmava o alvo. Começou a apresentação e terminou sem que se interrompesse o jogo alternado de olhares e sorrisos.
Acenderam-se as luzes e procurei ser rápido na direção da porta. Consegui alcança-la na calçada já se despedindo de um grupo agitado.
-Oi!
-Oi!
- Bons estes caras, né? Você está com pressa?
- Pois é, estou com uma turma aí, eles vão a uma festa.
- Pensei que pudéssemos conversar...
- Vamos embora Mila...estamos atrasados...
- Preciso ir, até qualquer hora...
- Até...
Notei que a turma da tal de Mila era bem grande e pela insistência estavam com pressa mesmo. A festa deveria ser muito boa. Entrei no carro e pensei naquela gente toda entrando na festa. Um a mais ou a menos nunca seria notado.
Mila e seus amigos acabavam de passar saindo do estacionamento, eram quatro, cinco, seis carros. Engatei a primeira e decidi segui-los. De início à distância e logo depois colado ao último carro.  Poucos quarteirões foram percorridos e já procuravam espaço livre entre as árvores antigas da rua escura e silenciosa demais para uma festa com tanta gente. Esperei todos os carros se esvaziarem e saí em direção ao grupo.
- Oi de novo.
- Você por aqui?
- Incomodo?
- Não, acho que não!
Todos subiam por uma escada lateral para uma casa assobradada, embaixo uma garagem havia sido transformada em uma loja de consertos de guarda-chuvas. Na subida fui ultrapassado e perdi de novo o contato com Mila, o que se tornou desagradável ao entrar na sala.
Estava iluminada apenas por uma vela colocada em cima de uma mesa que era o único móvel. Todos sentados no chão, de costas apoiadas na parede. Poucos conversavam, a maioria tinha os olhos fixos no casal que preparava algo sobre a mesa. Esperei os olhos se acostumarem à escuridão e consegui encontrar o sorriso de Mila. Ela recebia um cigarro do rapaz que estava na mesa como se estivesse tocando algo sagrado.
Meu cérebro estalou, mau sinal. Olhei de novo para a mesa. Um montinho de erva seca,  papéis brancos, quase transparentes.
Nunca tive preconceitos quanto a hábitos, mas sempre preferi estar consciente e ver a vida como ela é e não como sonhos me pudessem fazer ver. Estou fora...pensei rápido!
- Quente aqui dentro hein!? Sorri amarelo para o japonês do lado.
- Vai esquentar mais daqui a pouco.
- Vou tomar um arzinho.
- !!!???
 Desci lentamente as escadas procurando meu carro entre as árvores. Levantei  o braço procurando o relógio e avistei várias luzes vermelhas e azuis no fim da rua.
- Polícia, alertou meu grilo falante. Estão cercando o quarteirão.
 Entrei rápido no carro e manobrei na direção contrária. Na equina diminui a velocidade e entrei na transversal no exato momento em que as viaturas chegavam e fechavam também este lado da rua. O cerco está completo.
Parei alguns metros adiante e enquanto secava o suor gelado do rosto pude avistar os gorilas armados se dirigindo em quantidade exagerada ao sobrado. Entrei no carro , liguei o rádio.
- Tente outra vez, cantava Raul Seixas.
Decidi ir prá casa.



2 comentários:

  1. Cara,
    É uma sensação muito boa poder reler, rever mesmo em fotos, vídeos pessoas que de alguma maneira se conectaram através da arte. A frase tá na cabeça, pra aliviar a dor...é isso o refrão? Vamos nessa mano, escrevendo, cantando, curtindo...de boa essa onda chamada vida. Valeu amigo, até qualquer hora.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Cordeiro...que surpresa boa!!!!! Estava mesmo precisando disso! Quando puder e quiser manda seus toques, shows, trabalhos, tudo. Tô sempre de olho no teu blog à procura de novidades tuas. Grande abraço irmão!

      Excluir