-É isto! Sessão maldita no Lira Paulista! Começa à meia-noite, dá tempo!
Passando pouco das onze, subia devagar pela direita na direção de Pinheiros, cruzei a 9 de Julho, a Rebouças e entrei na Henrique Schauman. O brilho dos inúmeros neons dava vida e cor aos inúmeros bares, danceterias e choperias. Naqueles dias dos anos 70 já pulsava por todos os lados o som alegre da noite paulistana, misto de rock, samba, motos e carros. Foi incrivelmente fácil encontrar uma vaga perto do pequeno teatro, o que pareceu prenúncio de boa sorte.Onze e meia e fervia o local pela marginália noturna, figuras típicas do subterrâneo cultural da Vila Madalena. Hippies patéticos ainda discutindo o poder alucinógeno, latinos em portunhol fluente dando vivas à futura revolução, blacks pensando funk, gente bonita à procura.
Ao comprar o ingresso fiquei sabendo da dupla que se apresentava, Lé Dantas e Cordeiro. Faziam um som urbano com raízes interioranas, vindos do Paraná se não me trai a memória. Já havia ouvido algo na TV Cultura, falavam bem. Meia hora demora muito a passar quando se está sozinho..pensei em uma cerveja para me fazer companhia mas desisti ao lembrar da fama do banheiro do Lira.
- Garçom! Uma vodka com martini doce e duas pedras de gelo.
Encarei firme o crioulo magro que estranhou o pedido. Eu também. Me pareceu sonora a combinação. Meu estomago reclamou no primeiro gole. Fui até o fim, aguardando os ponteiros se encontrarem e permitirem minha entrado no teatro.
O Lira Paulistana abriu suas portas no horário, engolindo a fauna ávida em seus bancos duros dispostos em semicírculo, formando uma arena. Sentei na segunda fila e esperei.
As luzes ainda estavam acesas quando aconteceu. Uma fada de olhos verdes enormes me encarava do outro lado da platéia.
Naturalmente procurei ao meu lado alguém que pudesse ser o alvo dos raios emitidos por aqueles olhos, mas os casais vizinhos estavam entretidos nos arrulhos pré-motelescos. Quando voltei a cabeça em direção fatídica, um sorriso displicente confirmava o alvo. Começou a apresentação e terminou sem que se interrompesse o jogo alternado de olhares e sorrisos.
Acenderam-se as luzes e procurei ser rápido na direção da porta. Consegui alcança-la na calçada já se despedindo de um grupo agitado.
-Oi!
-Oi!
- Bons estes caras, né? Você está com pressa?
- Pois é, estou com uma turma aí, eles vão a uma festa.
- Pensei que pudéssemos conversar...
- Vamos embora Mila...estamos atrasados...
- Preciso ir, até qualquer hora...
- Até...
Notei que a turma da tal de Mila era bem grande e pela insistência estavam com pressa mesmo. A festa deveria ser muito boa. Entrei no carro e pensei naquela gente toda entrando na festa. Um a mais ou a menos nunca seria notado.
Mila e seus amigos acabavam de passar saindo do estacionamento, eram quatro, cinco, seis carros. Engatei a primeira e decidi segui-los. De início à distância e logo depois colado ao último carro. Poucos quarteirões foram percorridos e já procuravam espaço livre entre as árvores antigas da rua escura e silenciosa demais para uma festa com tanta gente. Esperei todos os carros se esvaziarem e saí em direção ao grupo.
- Oi de novo.
- Você por aqui?
- Incomodo?
- Não, acho que não!
Todos subiam por uma escada lateral para uma casa assobradada, embaixo uma garagem havia sido transformada em uma loja de consertos de guarda-chuvas. Na subida fui ultrapassado e perdi de novo o contato com Mila, o que se tornou desagradável ao entrar na sala.
Estava iluminada apenas por uma vela colocada em cima de uma mesa que era o único móvel. Todos sentados no chão, de costas apoiadas na parede. Poucos conversavam, a maioria tinha os olhos fixos no casal que preparava algo sobre a mesa. Esperei os olhos se acostumarem à escuridão e consegui encontrar o sorriso de Mila. Ela recebia um cigarro do rapaz que estava na mesa como se estivesse tocando algo sagrado.
Meu cérebro estalou, mau sinal. Olhei de novo para a mesa. Um montinho de erva seca, papéis brancos, quase transparentes.
Nunca tive preconceitos quanto a hábitos, mas sempre preferi estar consciente e ver a vida como ela é e não como sonhos me pudessem fazer ver. Estou fora...pensei rápido!
- Quente aqui dentro hein!? Sorri amarelo para o japonês do lado.
- Vai esquentar mais daqui a pouco.
- Vou tomar um arzinho.
- !!!???
Desci lentamente as escadas procurando meu carro entre as árvores. Levantei o braço procurando o relógio e avistei várias luzes vermelhas e azuis no fim da rua.
- Polícia, alertou meu grilo falante. Estão cercando o quarteirão.
Entrei rápido no carro e manobrei na direção contrária. Na equina diminui a velocidade e entrei na transversal no exato momento em que as viaturas chegavam e fechavam também este lado da rua. O cerco está completo.
Parei alguns metros adiante e enquanto secava o suor gelado do rosto pude avistar os gorilas armados se dirigindo em quantidade exagerada ao sobrado. Entrei no carro , liguei o rádio.
- Tente outra vez, cantava Raul Seixas.
Decidi ir prá casa.
Cara,
ResponderExcluirÉ uma sensação muito boa poder reler, rever mesmo em fotos, vídeos pessoas que de alguma maneira se conectaram através da arte. A frase tá na cabeça, pra aliviar a dor...é isso o refrão? Vamos nessa mano, escrevendo, cantando, curtindo...de boa essa onda chamada vida. Valeu amigo, até qualquer hora.
Cordeiro...que surpresa boa!!!!! Estava mesmo precisando disso! Quando puder e quiser manda seus toques, shows, trabalhos, tudo. Tô sempre de olho no teu blog à procura de novidades tuas. Grande abraço irmão!
Excluir